domingo, 1 de março de 2009

Hoje tem festa no Céu



Ao ver seu rosto, qualquer um diria que ela não sofreu. Infelizmente, não posso dizer que isso foi verdade. Me lembro de uma conversa que tive com a Clarinha em São Paulo, em que ela sabiamente disse que a Inha - aquela vó que levava os três priminhos no cinema, a museus e achava, coberta de razão, tão a sério os encontros familiares - já havia morrido.

Gosto de acreditar que todas as pessoas têm pelo menos duas mortes: a física e a espiritual (a segunda acontece quando todos os que a conheceram se forem, mas graças a Deus* isso ainda falta muito). A Inha já sofreu duas mortes. A primeira é uma que nem sempre atinge as pessoas, a morte psicológica. Aconteceu alguns anos atrás, confesso que nem sei bem quantos - quatro, eu acho - ainda quando morava em São Conrado.

A segunda, conhecida como "definitiva", foi hoje, dia primeiro de março de 2009. No apartamento de Copacabana, por volta de 5:30 da manhã, ela descansou - como me avisou minha mãe ao me acordar. Não, não foi uma surpresa, mas nem por isso deixa de chocar. Umas horas atrás estavam Tia Marisa, Mari e Lela lembrando boas histórias dessa mulher tão forte e decidida até não poder mais.

Moradora por tantos anos do 83 da Povina Cavalcanti, hoje aos 83 anos ela descansou no Edifício Petrônio, prédio da família. Faço minhas, agora, as
palavras da Cacá: "descansa em paz. hj ela se foi, depois de uma vida mais que iluminada, sorte nossa ter convivido com uma mulher tão fenomenal como ela. essencial na minha vida" e quero que chegue, de algum modo, o abraço apertado que eu queria poder dar pessoalmente na Naná.




Acabei ontem um livro narrado pela Morte, sobre uma Menina que encontrou nas palavras um modo de se desligar do mundo. Liesel Meminger, em sua experiência fictícia, não tinha medo da Morte. Assim como ela, não o tenho, mas ainda guardando semelhanças, também não gosto de sua visita. A narradora diz ter se encontrado com a Menina três vezes, sendo que em nenhuma delas a visita foi pessoal. Por mais que esperássemos o que aconteceu, todos fomos pegos de surpresa. E hoje mesmo fui lembrada por outra Menina que nos momentos mais alegres, somos trazidos de volta à realidade com algum choque, algo que nos faz sofrer e chorar. Mas em contrapartida, em nossas piores fases tem sempre um motivo - ainda que pequeno - que nos faça sorrir.

Fico feliz que ela será cremada. Foi por causa de Macaulay Culkin ("O Rochedo de Gibraltar") que descobri a cremação e passei a preferir. Poor Grandma, ele disse quando foi com os pais visitar a avó no cemitério, Bad worms. E seguindo a vontade do avô, ele e outros netos preparam uma fuga de última hora para dá-lo um devido enterro viking.



Dizem que quando um viking morria, os outros o colocavam numa jangada à noite e esperavam chegar até alto mar. Quando já estivesse longe, atiravam flechas com fogo, para a cremação do corpo. Passavam a noite toda assistindo a passagem, até o amanhecer. Dizem que quando a cor do fogo se misturava com o nascer do sol, aquele viking teve uma boa vida e teria uma boa vida após a Morte.




As cores da Inha certamente se misturariam, pintando no Céu o mais lindo alvorecer.

***


O agradecimento do Oscar:

À Osita, Ivo, Daulete, Dalcilete, Lucinete, Rosania, Ali, Graça, meu Pai, minha Mãe, Lela, Cacá, Naná por telefone, Tio Felipe, Tio Roberto, Tia Lili, Tiza, Mari, Dindo Pedro, Dinda Kika, Tia Ignez, Rafael, Bia, Flavinho, Denise, Tia Marisa, Tio George, Marcelo, Aninha, Tio Guido, Juju, Tia Daisy, Ana Richa, Gugu, Vera, Helena, Duda, prima Teresa, Claudinha, Felipinho, vó Rose, Tetéia, prima Irene, Vicente, Raquel Jardim, Gustavo, Marcinha, Graça Góes, Lucia, Tio José, Meissa, Beto, Pati, Bia (Osita), Felipe (Tiza), Marcelo (Tiza), Andréa (fisioterapeuta) e Beto R.O.



E agora à noite, Georgiana e Dudu Pinha.

***

Mas não foi a Terra que perdeu uma Estrela, foi o Céu que ganhou uma. Ganhou uma estrela ao som dos mantras de Gurumayi e ao cheiro de incensos. Uma estrela que vai brilhar bem forte todas as noites.




Parece até que sempre que escrevo a palavra Deus tenho que pôr um * ao lado. Desta vez eu lembro o porquê: não sou religiosa, não vou à Igreja e raramente evoco o nome de Deus. Só digo quando realmente sinto que preciso, que um "graças a Deus" seria bem-vindo no momento. E coube feito uma luva, porque graças a Deus a Inha parou de sofrer do jeito que estava sofrendo.

7 comentários:

rafaela disse...

Marie!
Que orgulho de vc minha irmãzinha, que consegue transpor em palavras o turbilhão de emoções!
Um Beijo

Fernanda disse...

Meu amor, lindas palavras, linda foto, linda homenagem.
Recebo de algum modo seu abraco...mas queria mesmo que fosse pessoalmente. E pessoalmente gostaria de abracar apertado todos vcs, e de ter podido abracar muito mais ela nos ultimos quatro anos, que ela comecou a partir, e nesses ultimos que eu estou aqui...
Tenho certeza que agora ela vai descansar, em paz, num lugar lindo. E olhando por nos.
Inha, te amo. Muitos beijos.

Anônimo disse...

mary, que lindo post!
meu abraço maior tb vai pra naná, acho q vou espreme-la qdo chegar lá!
Inha bom descanso
te amo

Nou, com abraço imaginário. disse...

Mary,

Eu sei bem o que é isso que você passou. Minha vó ficou dez anos de cama antes de finalmente poder descançar, e ela também teria um fogo misturado ao céu.

Chorei ao ler seu post. Acho que a Morte tem uma certa facilidade em me impressionar e me fazer chorar. Mas, tem algo que me chamou atenção: "Mas em contrapartida, em nossas piores fases tem sempre um motivo - ainda que pequeno - que nos faça sorrir."

A vida me impressiona mais, Maria. Sabe, às vezes eu acho que não há nobreza nenhuma em aceitar a fatalidade das coisas, mas é algo necessário. Tem que ser assim, e no caso da Inha, ela estará melhor mesmo.

Quem sabe ela e minha avó não viram amigas lá em cima? Eu sou meio descrente do céu, mas se ele existir não duvido.

Queria ter algo de inteligente e confortante a dizer, mas não realmente tenho. Fico com o "te amo" e o "estou aqui" que são as únicas verdaeds indubitáveis que eu acho que podem te ajudar, pelo menos um pouquinho.

Abraçe forte suas irmãs, abraçe forte seus pais. E só pra não perder o costume, me dá um sorriso agora, pensando no quão maravilhoso foi seu tempo com ela.

=*

Anônimo disse...

Maria, muito orgulho de ser sua mãe! Bjs.

Lucia disse...

Mari,

Realmente vc tem o dom de escrever.
Ontem, um pouco antes de sair para o Cajú, li esse post. Quis ecrever na hora, mas não consegui. Confesso que me emocionei... e chorei... me lembrei muito da minha avó, que passou por algo semelhante.
O que sua prima Clarinha falou, eu sempre pensei sobre minha avó à partir de um determinado momento da doença. Eu pensava:" A essência da minha avó Isabel, já se foi à muito tempo. Restou uma "casca", onde algumas vezes afloram memórias muito antigas, e que será cuidada com muito carinho até o seu descanso" .
Isso às vezes, me levava a uma associação às cigarras. Cansei de ve-las grudadas nas árvores, mesmo depois de ter cantado tudo que tinham para cantar. A música tinha acabado, mas a "casca" ainda permanecia ali na árvore por algum tempo, mesmo em silêncio.

beijo com muito carinho prá você e Todos!

Anônimo disse...

Que beleza essa comparação com as cigarras! Obrigada por compartilhar. Bjs, marina